quarta-feira, 22 de julho de 2009

O Canto do Galo

Por Rubem Alves

Era uma vez um granjeiro. Era um granjeiro incomum, intelectual e progressista.
Estudou administração, para que sua granja funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutorado em criação de galinhas.
No curso de administração, aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado.
Aplicado à criação de galinhas, esse princípio se traduz assim: galinha que não bota ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.
Com o propósito de garantir a qualidade total de sua granja, o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controle da produtividade de suas galinhas. “Produtividade de galinhas” é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos botados pela unidade de tempo escolhida. Galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na granja como galinhas poedeiras. O granjeiro estabeleceu, inclusive, um sistema de “mérito galináceo”: as galinhas que botavam mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que botavam menos ovos recebiam menos ração.
As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.
Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, ato contínuo, subiam nas costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico e obrigavam-nas a se agachar. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o granjeiro que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da granja, qualquer um deles botara. Lembrou-se o granjeiro, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha.
As galinhas continuaram a botar ovos como sempre haviam botado: os números escritos nos relatórios não deixavam margens a dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, eles se quebravam e de dentro deles saíam pintinhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintinhos. E, se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta. Aí o granjeiro científico aprendeu duas coisas:
Primeiro: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.
Segundo: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas”.
Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer “aquele que ensina”. Mas o ensino é, precisamente, uma atividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correta é pesquisadores, isto é aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.
Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios.
As revistas internacionais são os ninhos acreditados. Não basta botar ovos. É preciso botá-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.
Como resultado da pressão “publish or perish”, bote ovos ou sua cabeça será cortada, a docência termina por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, em vez de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de botar ovos, são obrigados pela presença de alunos a gastar seu tempo numa tarefa irrelevante: ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).
O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem ordenar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender a exigência da comunidade científica internacional de “publish or perish”.
Eu acho que o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam ovos botados. Sugiro que nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que trabalham nela, dêem mais atenção ao canto do galo…

ALVES, R. Entre a Ciência e a Sapiência. O Dilema da Educação. 6ªed. São Paulo: Ed. Loyola, 2001. p. 67-71.

Fotografia: Vagner Moura

9 comentários:

  1. Leonardo Coutinho22 de julho de 2009 22:49

    Galinha que não bota ovo não vale a ração que come.

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  2. Muito bom o texto, meninas!
    Apresentei um seminário sobre isso. E foi um dos seminários que menos gostei de apresentar, pois as controvérsias que existem se acentuam muito e geram certo desânimo.
    O método de avaliação proposto pelo sistema é um mal necessário. Essa forma quantitativa, quando feita de forma correta, auxilia muito. Além de medir o desempenho do aluno, também mede o desempenho do docente.
    Por outro lado, ela entra de uma forma muito perversa, porque é basicamente classificatória e seletiva. E essa classificação é injusta porque se torna a “única” forma de aprender e de ensinar, então, quem não se aproxima da “única” forma de ensinar da universidade é tido como incapaz , incompetente e, futuramente, descartável para o mercado de trabalho.
    É preciso avaliar o aluno como um todo, pois ele não é uma nota, ele não é um 7, um 8, um 5... Ele é um todo.
    O que me chateia é saber que realmente grande parte do corpo docente é composto por pesquisadores, e olha lá.
    Um colega da faculdade que já leciona há um bom tempo – foi meu professor no colégio, inclusive – me disse que é normal que os acadêmicos de cursos de licenciatura sejam sonhadores, mas, depois que começam a lecionar, percebem que é muito mais fácil entrar no mesmo barco, ou seja, se tornar um pesquisador. Triste, né?!
    Engraçado que ele vivia me perguntando se ele foi um bom professor pra mim. Eu sempre desviava da pergunta dele, mas deveria ter dito à ele que não.

    Que o canto do galo seja avaliado também!

    Beijos, meninas!
    Dai

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  3. Oiê!
    Eu tava aqui vendo o vídeo da Maria Bethânia. "Sonho impossível" é tão, tão, tão...

    "É minha lei, é minha questão
    Virar este mundo, cravar este chão.
    (...)
    E o mundo vai ver uma flor
    Brotar do impossível chão."

    *.*


    Beijos, meninas!
    Dai

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  4. "Lutar quando é fácil ceder
    Vencer o inimigo invencível
    Negar quando a regra é vender"

    É maravilhosa essa música!
    Diz tudo!
    Beijo, DaiOne!♥

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  5. O texto é muito interessante, gostei muito, continue assim, quero ler mais texto como esse, bjxx, xau.

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  6. Maria Rita (Jainy)27 de julho de 2009 10:50

    Noossaa!!!
    Pàra tuudoo!
    Meninas, ki texto hein!?!
    M-A-R-A!
    O vídeo tbém é muito bão!
    Essa música diz tanta cosa...
    Perfeituuu!
    Bjãuuu lindas!

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  7. Jainy,
    obrigada, minha Maria Rita santinha! rs
    (que bom que gostou do apelido) ;)

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  8. Uhulllllll!!!!!!Esses textos tem uma forma atrativa para tratar de questões veridicas..."Mérito galináneo"...Excepcional isso!!!!!
    Showwwwwwww!!!!!!!!!!
    Beijos Meninas!

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  9. preciso fazer um resumo do texto ocanto do galo de rubem alves.quem me ajuda?

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