terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Tempo em Fatias


Por Carlos Drummond de Andrade

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez com outro número
e outra vontade de acreditar que
daqui para adiante vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.
Para você, desejo todas as cores desta vida.

Todas as alegrias que puder sorrir .
Todas as músicas que puder emocionar.
Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,

Que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas.

Mas nada seria suficiente para
repassar o que realmente desejo a você.
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.

Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua FELICIDADE!

Fotografia: Joaquim Santos


FELIZ 2010 PARA TODOS NÓS!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Natal de Amor

Por Lêda Mello

Estive meditando sobre o Natal.
Interessante...
Não consegui me fixar na imagem
de uma doce criança adormecida,
repousando sobre um leito de palha.

Meditar sobre o Natal levou-me a Jesus
trazendo-nos a Boa Nova.
"Eu lhes dou um novo mandamento:
Amem uns aos outros, assim como eu os amei."
(Jo,13,34)

Passaram-se dois milênios...
A ciência e a tecnologia
descortinaram horizontes ilimitados.
A humanidade deveria estar em paz!
Mas não está.

Confusas, as pessoas não encontram uma forma
de como ser gente no mundo das máquinas.
Apesar do conforto e das comodidades,
vivemos uma grande solidão.
Esquecemos o Mandamento do Amor!
E, assim, vivemos a solidão do desamor.

O Amor é gratuito. Não se compra e nem se troca.
O Amor requer profundidade. Não sobrevive na superfície.
O Amor repousa na alma
de onde transborda para o corpo e para o universo.
O Amor tece laços com linhas de infinito.
O Amor é nosso traço de união com Deus,
através dos nossos companheiros de caminhada.

Natal.
O Amor pede permissão para nos entregar
a Paz e a Felicidade que nos foram destinadas.

Um Feliz Natal de Amor para todos nós!


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Cultura

Por Arnaldo Antunes

O girino é o peixinho do sapo.
O silêncio é o começo do papo.
O bigode é a antena do gato.
O cavalo é o pasto do carrapato.
O cabrito é o cordeiro da cabra.
O pescoço é a barriga da cobra.
O leitão é um porquinho mais novo.
A galinha é um pouquinho do ovo.
O desejo é o começo do corpo.
Engordar é tarefa do porco.
A cegonha é a girafa do ganso.
O cachorro é um lobo mais manso.
O escuro é a metade da zebra.
As raízes são as veias da seiva.
O camelo é um cavalo sem sede.
Tartaruga por dentro é parede.
O potrinho é o bezerro da égua.
A batalha é o começo da trégua.
Papagaio é um dragão miniatura.
Bactéria num meio é cultura.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Se Eu Fosse Eu

Por Cia. Simples de Teatro


"Inspirada no romance “Uma Aprendizagem ou Livro dos Prazeres” de Clarice Lispector, a peça expõe a iniciação de uma mulher (Lóri) em busca de si mesma. Enfrentando-se e questionando a sua própria natureza, ela experiencia o encontro com o outro (Ulisses), descobrindo o amor. Seguindo o mapa da aprendizagem sugerida por Clarice, a companhia mergulhou em sua própria trajetória desaguando assim num espetáculo que contém, como a vida, um fluxo não linear. São narrativas fragmentadas. Ora os “atores / personagens” são inconscientes, ora despertam para a consciência. A peça não se fecha em uma única linha narrativa, pois entendemos que o espectador completa a trama com sua própria história. Parafraseando Clarice, “nosso porto de chegada são os outros”. Mais do que adaptar a fábula, o espetáculo pretende teatralizar a forma narrativa clariciana, pautada no fluxo livre ou monólogo interior. A narrativa de Clarice Lispector possui profundas ressonâncias com a poética da Cia. Escolhemos a mestra Clarice Lispector por seu fluxo livre, pela palavra-corpo, pela fronteira entre o real imediato e uma profundidade íntima, por seus mistérios, e acima de tudo, porque sabíamos que falar em Clarice sem falar de nós mesmos seria traição. Esse trabalho expõe nossos fragmentos de aprendizagem sobre o universo clariciano, sobre as práticas do ator, sobre nós. O fundamental é que a matriz da criação seja somente o ator e a busca para atingir sua plenitude no instante cênico.
No instante da troca.
No encontro com o outro."


Texto extraído do blog da Cia.: http://ciasimples.blogspot.com/

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Difícil Ser Transparente?


Por Rosana Braga

Às vezes, fico me perguntando: por que é tão difícil ser transparente? Costumamos acreditar que ser transparente é simplesmente ser sincero, não enganar os outros. Mas ser transparente é muito mais do que isso. É ter coragem de se expor, de ser frágil, de chorar, de falar do que a gente sente... Ser transparente é desnudar a alma, é deixar cair as máscaras, baixar as armas, destruir os imensos e grossos muros que nos empenhamos tanto para levantar... Ser transparente é permitir que toda a nossa doçura aflore, desabroche, transborde! Mas infelizmente, quase sempre, a maioria de nós decide não correr esse risco. Preferimos a dureza da razão à leveza que exporia toda a fragilidade humana. Preferimos o nó na garganta às lágrimas que brotam do mais profundo de nosso ser... Preferimos nos perder numa busca insana por respostas imediatas à simplesmente nos entregar e admitir que não sabemos, que temos medo! Por mais doloroso que seja ter de construir uma máscara que nos distancia cada vez mais de quem realmente somos, preferimos assim: manter uma imagem que nos dê a sensação de proteção... E assim, vamos nos afogando mais e mais em falsas palavras, em falsas atitudes, em falsos sentimentos. Não porque sejamos pessoas mentirosas, mas apenas porque nos perdemos de nós mesmos e já não sabemos onde está nossa brandura, nosso amor mais intenso e não-contaminado. Com o passar dos anos, um vazio frio e escuro nos faz perceber que já não sabemos dar e nem pedir o que de mais precioso temos a compartilhar, doçura, compaixão... a compreensão de que todos nós sofremos, nos sentimos sós, imensamente tristes e choramos baixinho antes de dormir, num silêncio que nos remete a uma saudade desesperada de nós mesmos... daquilo que pulsa e grita dentro de nós, mas que não temos coragem de mostrar àqueles que mais amamos! Porque, infelizmente, aprendemos que é melhor revidar, descontar, agredir, acusar, criticar e julgar do que simplesmente dizer: "você está me machucando... pode parar, por favor?". Porque aprendemos que dizer isso é ser fraco, é ser bobo, é ser menos do que o outro. Quando, na verdade, se agíssemos com o coração, poderíamos evitar tanta dor, tanta dor... Sugiro que deixemos explodir toda a nossa doçura! Que consigamos não prender o choro, não conter a gargalhada, não esconder tanto o nosso medo, não desejar parecer tão invencível. Que consigamos não tentar controlar tanto, responder tanto, competir tanto, que consigamos docemente viver, sentir, amar... E que você seja não só razão, mas também coração, não só um escudo, mas também sentimento. Seja transparente, apesar de todo o risco que isso possa significar.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Nascer para o Além

De Pe. Juca
Adaptação: Sandra Zilio

Há quem morra todos os dias.
Morre no orgulho, na ignorância, na fraqueza.
Morre um dia, mas nasce outro.
Morre a semente, mas nasce a flor.
Morre o homem para o mundo, mas nasce para Deus.
Assim, em toda morte, deve haver uma nova vida.
Esta é a esperança do ser humano que crê em Deus.
Triste é ver gente morrendo por antecipação...
De desgosto, de tristeza, de solidão.
Pessoas fumando, bebendo, acabando com a vida.
Essa gente empurrando a vida.
Gritando, perdendo-se.
Gente que vai morrendo um pouco, a cada dia que passa.
E a lembrança de nossos mortos, despertando, em nós, o desejo de abraçá-los outra vez.
Essa vontade de rasgar o infinito para descobri-los. De retroceder no tempo e segurar a vida. Ausência: - porque não há formas para se tocar.
Presença: - porque se pode sentir.
Essa lágrima cristalizada, distante e intocável.
Essa saudade machucando o coração.
Esse infinito rolando sobre a nossa pequenez. Esse céu azul e misterioso.
Ah! Aqueles que já partiram!
Aqueles que viveram entre nós.
Que encheram de sorrisos e de paz a nossa vida.
Foram para o além deixando este vazio inconsolável.
Que a gente, às vezes, disfarça para esquecer.
Deles guardamos até os mais simples gestos. Sentimos, quando mergulhados em oração, o ruído de seus passos e o som de suas vozes.
A lembrança dos dias alegres.
Daquela mão nos amparando.
Daquela lágrima que vimos correr.
Da vontade de ficar quando era hora de partir. Essa vontade de rever novamente aquele rosto.
Esse arrependimento de não ter dado maiores alegrias.
Essa prece que diz tudo.
Esse soluço que morre na garganta...
E...
Há tanta gente morrendo a cada dia, sem partir. Esta saudade do tamanho do infinito caindo sobre nós.
Esta lembrança dos que já foram para a eternidade.
Meu Deus!
Que ausência tão cheia de presença!
Que morte tão cheia de esperança e de vida!

Fotografia: Ana Maya
Texto enviado por: Jaqueline Silva Polidoro

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Cabana, de William Young

"Cada relacionamento entre duas pessoas é absolutamente único. Por isso você não pode amar duas pessoas da mesma maneira. Simplesmente não é possível. Você ama cada pessoa de modo diferente por ela ser quem ela é e pela especificidade do que ela recebe de você. E quanto mais vocês se conhecem, mais ricas são as cores desse relacionamento."

(Do livro A Cabana, pág 199.)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Cecília Meireles


"O vento é sempre o mesmo, mas sua resposta é diferente em cada folha. Somente a árvore seca fica imóvel entre borboletas e pássaros."



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Se Queres Saber de Mim

Por Débora Cristina Denadai

Se queres saber de mim
não olhes os meus retratos
julgando saber-me assim.

Se queres saber quem sou
não busque nas minhas respostas
quando perguntas aonde vou.

Se queres saber quem é
este que te sorri
não olhe para o homem.

Que não me saberás pelo sorriso,
não me conhecerás pelas respostas,
meus retratos são imprecisos,
a cada dia traço novas rotas.

Se queres porventura, um dia,
entender deste coração,
olhe meus olhos primeiro:
é neles que mora a poesia
que me explica dia após dia
e me mostra por inteiro.

Se queres saber-me de fato,
recomendo-te menos cuidado,
muito carinho, pouca fala,
mais riso e tato, muito tato.

Fotografia: Geisa

domingo, 30 de agosto de 2009

Feliz aniversário, Maísa!!!



Minha querida amiga
Apesar da distância
Incessante correria
Sinto você tão presente nos meus dias
Aprendi que uma amizade tem que ter desprendimento

Muitas das coisas mais importantes
Ainda passam por despercebidas
Isso inclui aquelas doses diárias de carinho
Sempre ficam guardadas na memória e no coração
Aflorando e cultivando os mais lindos sentimentos

Mesmo sendo inexplicável
A vida fez a gente se encontrar
Independente do que aconteça
Saiba que estarei por perto
Ainda que distante

Mais momentos de alegrias
Acredito que vamos compartilhar
Iniciado pelo respeito e verdade
Sendo a nossa base
Antes, agora e sempre

Muito me orgulho de você
Admiro o que você é e o que você faz
Intensamente iluminada
Se superando sempre
Acreditando em você

Muito obrigada por tudo
Amiga de alma
Irmã de coração
Só quero você comigo até o infinito
Amo você!

Fabi

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

19 de agosto: Aniversário da Fabi!

Queria escrever um poema ou um texto bonito. Queria demonstrar todo meu carinho nele. Queria descrever tudo que a torna especial.
Procurei frases célebres. Procurei o poema perfeito. Procurei e nada encontrei.
Nada que demonstrasse o real valor da nossa amizade. Amizade regada de muito zelo e confiança.
Carinho que não lembro exatamente quando começou. Carinho que transcende qualquer explicação.
Entre lágrimas e gargalhadas. Entre vitórias e medos. Entre encontros e despedidas.
Fabiana. Fiel amiga. Feliz aniversário!
Com amor,
Maísa


terça-feira, 11 de agosto de 2009

Até Quando?

Por Fabiano Pascarelli

Até quando nós, o povo brasileiro, vamos sofrer calados com todo o tipo de injustiça e violência que sofremos?
Até quando sofreremos impassíveis o assalto do governo e a violência dos marginais?
Até quando ficaremos assistindo pessoas inocentes sendo mortas por bandidos e pela omissão dos nossos magníficos governantes?
Até quando pagaremos os absurdos impostos e taxas criadas por nossos políticos?
Até quando veremos os bancos terem lucros astronômicos e o governo se ajoelhando a seus pés?
Até quando seremos obrigados a ver e ouvir senadores corruptos trocando ofensas e fazendo o que bem querem com o nosso suado dinheiro?
Até quando ficaremos sem fazer nada?



O vídeo abaixo foi feito por alunos da agência experimental Mais Comunicação, da faculdade de Relações Públicas da Metrocamp/IBTA de Campinas, SP.
Poema Realidade Concreta, de autoria da agência.
Músicas Central do Brasil, de Antônio Pinto e Jaques Morelenbaum e Brasil Corrupção, de Ana Carolina.
Imagens da cidade de Campinas (maio/2009).



quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Pai e Filho


Ele pensava que tudo sabia
Comandava até os sonhos dos seus
Acreditando que inconsequentes sempre seriam
E, mesmo adultos, imaturos
Caminhar o mesmo caminho
Superproteção?
Falta de ação
Mas agora ele já sabe
Sabe que nem tudo sabe
Respostas incertas
Não sei
Sem culpa
Imprevistos e novas possibilidades
Tempo de respirar
Desatar
Viver
Ser
E ele confia e torce
E o filho tudo compreende
Sorri, perdoa
Voa!

Texto: Fabiana Ribeiro e Maísa Bortoletto
Fotografia: Mineiro

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ser Princesa


"O que quer que aconteça", disse ela, "não pode mudar uma coisa. Se sou uma princesa em trapos e andrajos, posso ser uma princesa por dentro. Seria fácil ser princesa se eu estivesse vestida com tecido de fios de ouro, mas é um triunfo muito maior ser princesa o tempo todo, sem ninguém saber."

A Little Princess
Frances Hodgson Burnett

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O Canto do Galo

Por Rubem Alves

Era uma vez um granjeiro. Era um granjeiro incomum, intelectual e progressista.
Estudou administração, para que sua granja funcionasse cientificamente. Não satisfeito, fez um doutorado em criação de galinhas.
No curso de administração, aprendeu que, num negócio, o essencial é a produtividade. O improdutivo dá prejuízo; deve, portanto, ser eliminado.
Aplicado à criação de galinhas, esse princípio se traduz assim: galinha que não bota ovo não vale a ração que come. Não pode ocupar espaço no galinheiro. Deve, portanto, ser transformada em cubinhos de caldo de galinha.
Com o propósito de garantir a qualidade total de sua granja, o granjeiro estabeleceu um rigoroso sistema de controle da produtividade de suas galinhas. “Produtividade de galinhas” é um conceito matemático que se obtém dividindo-se o número de ovos botados pela unidade de tempo escolhida. Galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou superior a 250 ovos por ano podiam continuar a viver na granja como galinhas poedeiras. O granjeiro estabeleceu, inclusive, um sistema de “mérito galináceo”: as galinhas que botavam mais ovos recebiam mais ração. As galinhas que botavam menos ovos recebiam menos ração.
As galinhas cujo índice de produtividade fosse igual ou inferior a 249 ovos por ano não tinham mérito algum e eram transformadas em cubinhos de caldo de galinha.
Acontece que conviviam com as galinhas poedeiras, galináceos peculiares que se caracterizavam por um hábito curioso. A intervalos regulares e sem razão aparente, eles esticavam os pescoços, abriam os bicos e emitiam um ruído estridente e, ato contínuo, subiam nas costas das galinhas, seguravam-nas pelas cristas com o bico e obrigavam-nas a se agachar. Consultados os relatórios de produtividade, verificou o granjeiro que isso era tudo o que os galos – esse era o nome daquelas aves – faziam. Ovos, mesmo, nunca, jamais, em toda a história da granja, qualquer um deles botara. Lembrou-se o granjeiro, então, das lições que aprendera na escola, e ordenou que todos os galos fossem transformados em cubos de caldo de galinha.
As galinhas continuaram a botar ovos como sempre haviam botado: os números escritos nos relatórios não deixavam margens a dúvidas. Mas uma coisa estranha começou a acontecer. Antes, os ovos eram colocados em chocadeiras e, ao final de vinte e um dias, eles se quebravam e de dentro deles saíam pintinhos vivos. Agora, os ovos das mesmas galinhas, depois de vinte e um dias, não quebravam. Ficavam lá, inertes. Deles não saíam pintinhos. E, se ali continuassem por muito tempo, estouravam e de dentro deles o que saía era um cheiro de coisa podre. Coisa morta. Aí o granjeiro científico aprendeu duas coisas:
Primeiro: o que importa não é a quantidade dos ovos; o que importa é o que vai dentro deles. A forma dos ovos é enganosa. Muitos ovos lisinhos por fora são podres por dentro.
Segundo: há coisas de valor superior aos ovos, que não podem ser medidas por meio de números. Coisas sem as quais os ovos são coisas mortas”.
Esta parábola é sobre a universidade. As galinhas poedeiras são os docentes. Corrijo-me: docente, não. Porque docente quer dizer “aquele que ensina”. Mas o ensino é, precisamente, uma atividade que não pode ser traduzida em ovos; não pode ser expressa em termos numéricos. A designação correta é pesquisadores, isto é aqueles que produzem artigos e os publicam em revistas internacionais indexadas.
Artigos, como os ovos, podem ser contados e computados nas colunas certas dos relatórios.
As revistas internacionais são os ninhos acreditados. Não basta botar ovos. É preciso botá-los nos ninhos acreditados. São os ninhos internacionais, em língua estrangeira, que dão aos ovos sua dignidade e valor. A comunidade dos produtores de artigos científicos não fala português. Fala inglês.
Como resultado da pressão “publish or perish”, bote ovos ou sua cabeça será cortada, a docência termina por perder o sentido. Quem, numa universidade, só ensina, não vale nada. Os alunos passam a ser trambolhos para os pesquisadores: estes, em vez de se dedicarem à tarefa institucionalmente significativa de botar ovos, são obrigados pela presença de alunos a gastar seu tempo numa tarefa irrelevante: ensino não pode ser quantificado (quem disser que o ensino se mede pelo número de horas/aula é um idiota).
O que está em jogo é uma questão de valores, uma decisão sobre as prioridades que devem ordenar a vida universitária: se a primeira prioridade é desenvolver, nos jovens, a capacidade de pensar, ou se é produzir artigos para atender a exigência da comunidade científica internacional de “publish or perish”.
Eu acho que o objetivo das escolas e universidades é contribuir para o bem estar do povo. Por isso, sua tarefa mais importante é desenvolver, nos cidadãos, a capacidade de pensar. Porque é com o pensamento que se faz um povo. Mas isso não pode ser quantificado como se quantificam ovos botados. Sugiro que nossas universidades, ao avaliar a produtividade dos que trabalham nela, dêem mais atenção ao canto do galo…

ALVES, R. Entre a Ciência e a Sapiência. O Dilema da Educação. 6ªed. São Paulo: Ed. Loyola, 2001. p. 67-71.

Fotografia: Vagner Moura

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dia da saudade

Por Nelly Carvalho

Foram criadas tantas comemorações, tantos dias e homenagens, só não foi criado até agora o "dia da saudade". Estamos devendo essa à nossa língua, pois só nela pode ser expresso este sentimento e, segundo Bastos Tigre, nas suas trovas, por "ela valeu a pena inventar-se o português".
Pode-se refutar o argumento dizendo que em outras línguas pode-se expressar o mesmo com outra forma como "I miss you", "tengo nostalgias de usted", "je languis de toi". Mas nenhuma tem o mesmo conteúdo semântico de tristeza e vontade de rever, resumido em uma única palavra que pode ser assim definida: "Saudade não é lembrança, nem mesmo recordação, saudade é a dor da ausência, maltratando o coração".
Também pode ser dito que o Dia de Finados já é uma data da saudade, mas nós não temos saudades apenas de quem partiu para sempre. Temos saudades até de nós mesmos, das faces que perdemos nos vários espelhos que refletiram nossa imagem e, às vezes, temos saudade e não sabemos nem de quê, como dizem os versos: "Eu hoje estou com saudade não sei ao certo de quê. de um dia de claridade, de um carinho de verdade, de ouvir a voz de você/ Eu sinto uma falta louca de um sonho bom que morreu, da alegria que foi pouca... de um olhar que não se vê... pois não há maior saudade que essa estranha ansiedade não sei ao certo de quê".
Fernando Pessoa tomou-a como mote constante, sentimento emblemático de seu povo: "Saudades, só portugueses/ Conseguem senti-las bem/ Porque têm essa palavra/Para dizer que as têm".
Porém, não são apenas os portugueses, e sim todos aqueles que usam a língua portuguesa, que com o termo exprimem o sofrido sentimento. A vida vai tecendo laços e tudo que tece são pedaços do vir-a-ser que se transforma em ser. Assim, a saudade aportou no Brasil com a colonização e, sendo o Recife um dos primeiros, senão o primeiro porto a ser tocado na rota, ela aqui aportou e fez sua morada em nosso Pernambuco.
Na nossa poesia, ela é dominante, ora representada pela "cotovia" em Bandeira, saudade da terra natal e da perdida alegria da infância, ora representada pela "noite de São João", junto com os entes queridos que estão "dormindo profundamente".
Olegário Mariano, ligando-a ao "amor" na encruzilhada do "Destino", diz que "ela veio ao mundo para ser boa e dar o seu sangue a quem a queira". Outros dizem ser "parte de nós que alguém leva, parte de alguém que nos fica". O sábio e saudoso Luiz Gonzaga avisava que a saudade é boa quando "a gente lembra só por lembrar, porém se vive a sonhar com alguém que se deseja rever, saudade aí é ruim", e eu digo isso por mim. É também, paradoxalmente, um dos temas recorrentes no tempo da folia, nas letras do frevo canção e de bloco - "a dor de uma saudade vive sempre no meu coração" -, a cantar as saudades do amor perdido ou da terra natal. Os versos emocionam lembrando que "a saudade é tão grande que até me embaraço ou ainda que é tão grande a saudade que até parece verdade que o tempo ainda pode voltar".
Grande ilusão! De etimologia incerta, as formas arcaicas primeiras foram "suidade, soedade e soidade", na fase do galego-português. Teria vindo assim de "soledade", solidão. Também foi levantada a hipótese de vir de "salutate", uma saudação bastante usada nas despedidas das cartas romanas. Até a influência de "saúde" já foi aventada. A dificuldade de explicar a mudança fonética fez João Ribeiro opinar que saudade tem origem no árabe "saudá", profunda tristeza. A outra hipótese (meio fantasiosa) é ter derivado de "Ceudda", forma bérbere de dizer Ceuta, fortaleza distante onde os soldados passavam longo tempo ausentes da terra natal.
O que fica, na verdade, é que com esta palavra, marca-se um estado de espírito que outras línguas não exprimem com precisão, sentimento muito próprio dos que usam o português como língua materna.
Porém, como diz o poeta, "uma coisa é cantá-la e outra coisa é senti-la". Bem que a saudade mereceria um dia para ser comemorada, entre nós, falantes do português, seus eternos cantores e cultores. Mas, enquanto esse dia improvável não vem, cada um escolha seu dia pessoal e intransferível, para comemorar todas as saudades que sentiu, sente e carrega consigo pela vida afora, seja ela longa ou ainda curta.


Imagem:

Menino com Pássaro, 1957
Cândido Portinari ( Brasil 1903-1962)
Óleo sobre tela, 65 x 53 cm

http://www.casadeportinari.com.br/princial.htm

http://www.portinari.org.br/

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Espaço


Por Daiane Braghin

Sobre minha cabeça, o teto.
Sob meus pés, concreto.
Ao redor, um mundo limitado. Sem frescor.
Onde aspirar oxigênio é respirar.
Onde olhar pela janela é contemplar paisagem.
O pior é me sentir completa com coisas assim.
O espaço físico limitado limita a liberdade, os sentidos e as capacidades dos seres.
Segurança que mata. Uma morte indolor. Incapaz de perceber o que é viver.
Nem portas e nem janelas.
Nem teto e nem chão.
Com cheiro de terra.
Com beijo do céu.
Com gosto de vida.
Sensibilidade que só vem à tona quando se contempla o variado, o natural, o solto... O ser!

Fotografia: Lu Peçanha

terça-feira, 30 de junho de 2009

Estamos inteiros ou somos apenas fragmentos?

Por Fernanda Lopes de Luzia

Neste exato momento em que você lê este artigo, você está fazendo quantas coisas mais? Quantas coisas existem em sua mesa no escritório? Quantas preocupações existem em sua mente? Quantas coisas pra fazer mais tarde... quantas coisas que você deixou de fazer... Um verdadeiro turbilhão no cérebro! Eu convido você neste momento a relaxar, a estar presente, a estar aqui, a estar no agora! A refletir o quanto você tem estado inteiro no que faz e quanto na maioria das vezes você está fragmentado. No dia de hoje relembre se enquanto você ouvia alguém você estava realmente ali entregue. Se quando alguém lhe deu um beijo ou demonstrou um olhar de carinho, você estava realmente ali entregue... Se no serviço que você desenvolvia sua cabeça estava por aí divagando... Se você foi capaz de sentir algo de novo em algo que você apenas entitulava como rotina.... Desacelere o passo por um instante e você perceberá que muitas vezes você é mais um dentre tantos maratonistas que vemos por aí.... Sempre correndo, sempre tentando encaixar o tempo para tudo o que se quer fazer.... E o pior, muitas vezes não sabendo nem para onde se está indo.... Mas a verdade é uma só.... Fazemos a maior parte das coisas fragmentados.... Não sabemos criar nossos momentos sagrados. Sagrado é um momento especial, é o momento em que você deve sentir que não existe mais nada além daquilo. É estar presente, é largar preocupações, ansiedades ou qualquer outro sentimento ligado a um tempo que não existe. Não existe afinal futuro ou passado. Você está aqui, perceba! Muitos colocam a desculpa nos momentos difíceis e que diante desses não é possível deixar de se preocupar. E quando você chega em casa, o seu local de descanso, você acessa seu momento sagrado? Você é capaz de dar risada junto com seu filho? Abraçar seu companheiro ou companheira? Conversar com as pessoas sem ter que ligar a TV? Prestar verdadeiramente atenção naquilo que você faz, naquilo que você diz, naquilo que você ouve, naquilo que você é? Com a desculpa de atender tantos pedidos externos, você muitas vezes esquece de você. Esquece de que se não cuidar bem de sua casa, ela tende a cair. E uma casa com rachaduras, não pode oferecer segurança a ninguém! É preciso saber fazer uma coisa de cada vez...
Fazer de cada instante um local sagrado, colocar a mente e atenção em cada instante, aprender, sentir cada situação e cada pessoa... Saber que não estamos passando por nossa vida acelerados e sem dar sentido a algo, saber que estamos vivendo e não somente existindo... Saber comer, comendo. Tomar banho, tomando banho! Amar alguém, amando! É simples assim! Faça o que estiver fazendo de forma inteira. Dê funcionalidade para a sua vida. Reduza o passo! Saiba fazer bem, mesmo poucas coisas que você fizer. Dê conta do que você faz! Tire o peso dos seus ombros e coloque mais felicidade nas suas relações. Quantas vezes você conflitou com o outro, simplesmente porque não esteve presente quando o outro gostaria de lhe falar sobre seus sentimentos ou sobre aquilo que pensava? Quando estamos presentes, estamos atentos, conscientes! E então com consciência, passamos a perceber coisas que antes não víamos. Começamos a acessar a sabedoria dentro de nós, passamos a ter mais respostas para nossa vida, estas que antes buscávamos apenas em conselheiros de fora. Se estamos conscientes, estamos plenos em saber quais são nossas necessidades reais. Eliminamos coisas que não servem mais em nossa jornada (e por vezes, são muitas), para então esvaziarmos... e leves, podermos fluir com o grande rio da vida, atentos à todos os "presentes" que nos são dados diariamente. Esteja inteiro no que faz! Seja inteiro para as pessoas com quem convive! Deixe as pessoas conhecê-lo de forma completa! Abrace de forma completa, beije de forma completa, ame de forma completa, escute de forma completa! Trabalhe de forma completa, ria, chore, de forma completa! Sinta a vida através de todos os seus sentidos! Sinta o gosto, o calor, o toque de todas as coisas... Se você parar um pouco, o mundo não atropelará você! É apenas a sua mente quem deu permissão pra isso! Só se pode crescer e tornar-se uma árvore com raízes firmes se você aprende primeiro a confiar que a chuva sempre completa o processo do seu crescimento.

Fotografia: António Alfarroba
Texto enviado por: Daniela Breno

terça-feira, 23 de junho de 2009

O Caminho ao Desconhecido

Por Fabiana Ribeiro e Maísa Bortoletto

Há sinais em toda a parte.
Sinais que nos dizem: você não está sozinho.
Em algum lugar, existe alguém com o mesmo pensamento que o seu. Alguém que fala o que você estava pensando naquele instante... “Eu ia falar isso!”
Sempre acontecem pequenas “coincidências”, mas só levamos em conta de que existe algo especial quando o acontecimento nos parece mais significativo. Quando nos surpreende.
Há uma curiosidade em querer saber o porquê dessas coisas acontecerem, porém a resposta pode ir além do nosso entendimento.
Então, até que nos provem o contrário, acreditamos em uma força divina que se mostra presente por meio de ligações entre pessoas que tem, entre si, afinidades. E nós até arriscamos dizer que talvez tudo já estava previsto. E por que não?!
Não precisa ser tão sensível para perceber as coisas mágicas que nos acontecem. Se até uma pessoa com quem não temos afinidade tem alguma razão de estar em nossa vida... Imagine com quem nós temos afinidades!
Reconhecer que há um mistério e que nada é por acaso, também é sentir esta sintonia que nos une.
Os sinais estão presentes, contemple-os!

Fotografia: Manuel Varzim

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