sábado, 23 de outubro de 2010

Múltipla Escolha

Por Lya Luft

"Nossa necessidade de tomar decisões e abrir, se não portas, ao menos portinholas do nosso tamainho, começa na infância, quando nos apresentam duas possibilidades, e temos de escolher: você quer bolo ou sorvete? Quer brincar dentro de casa ou no parque? Gosta mais do papai ou da mamãe? (E outras idiotices que os pais nos propõem.)

Quando adultos, a coisa se complica, e a dúvida cresce conosco: somos quem gostaríamos de ser? Temos opção? Paramos para pensar sobre tudo isso? Aceitamos as regras e comandos da nossa cultura sem hesitar, ou refletimos e às vezes votamos diferente, nos informamos melhor, trocamos de emprego, não nos deixamos explorar, tentamos melhorar nossas capacidades, cuidamos mais de nós mesmos, de nossas amizades e amores?

Quem quer parar para pensar, se há o perigo de desmontar? A reflexão e a quietude têm seu lado bom: é possível fazer algumas análises, mesmo na mais estreita das condições de vida; pode-se questionar, negar ou aceitar, desviar os olhos ou abrir a porta, os braços, a alma. Não somos inteiramente vítimas da família, do governo, do patrão, da mulher ou do marido, da amiga chata ou do falso amigo, nem mesmo disso que chamamos sociedade.

Mas ser vítimas tem suas vantagens, sorri o advogado do diabo. O conforto da futilidade, o útero do esquecimento fazem parte das forças que nos atraem para o fundo dessa escada rolante da vida, que subimos às avessas. Para escapar disso, sabemos bem, “Hay que tener cojones”, como disse, sobre bem diverso assunto, uma diplomata americana.

Primeiro deveríamos descobrir o que está errado em nós, em nossa vida, o que desejamos ou podemos transformar. Ou gostamos de tudo como está, e então já descansamos no vestíbulo do paraíso do contentamento. O que é bem difícil, pois estamos sob o bombardeio de mil questionamentos, mesmo dentro de casa atrás das nossas pálpebras bem fechadas."

Do livro Múltipla Escolha, Lya Luft, pág. 129-130.

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